Vathek (William Beckford)

Seguramente um de meus livros preferidos, Vathek (1782) é uma novela de leitura rápida e fluida: com pouco mais de 140 páginas (no livro de bolso aí ao lado), esse dito “conto árabe” escrito em francês por um britânico promete terminar tão logo tenha começado e deixando o leitor sem querer terminá-lo, com medo de quebrar o encanto de um mundo tão vivaz e maravilhoso.

Escrito no final do século XVIII, Vathek sofre uma pesada influência do orientalismo vigente na época: quando o Ocidente voltou seus olhos para as arábias, especialmente depois da “tradução” de Galland das 1001 noites, no começo do século, criou-se uma tendência de romantizar e recriar histórias, costumes e situações dessas mágicas terras distantes. Beckford afirmava que havia escrito o livro em dois ou três dias, em um surto febril de inspiração. Sabe-se também que um califa real inspirou a história, apesar do “enxerto do maravilhoso” ser todo da autoria do autor britânico.

Vathek conta a história do califa homônimo, um governante cheio de esplendor, mas dado às paixões: tendo construído um palácio para cada um dos cinco sentidos, o monarca passava boa parte de seu tempo deliciando-se com as sensações que eles lhe proporcionavam. Era amado pelo povo, temido por seu temível olhar (que fulminava as vítimas na hora) e também tido em baixa conta pelos religiosos mais próximos, que viam seu comportamento desregrado como um afastamento das leis do Profeta.

Entretanto, maior que a glutonice de Vathek era sua curiosidade: ávido por conhecimento, muito lia e estudava, principalmente as artes ocultas. Entrava em debates, consultava as estrelas e chegou a construir uma enorme torre para ficar mais perto dos astros. E nesse simulacro de Babel é que ele recebeu um portento que daria início a sua maior aventura: a visita de um estrangeiro, vindo de terras distantes, que lhe revelaria os maiores segredos da Terra.

E é justamente a vinda desse estrangeiro que dá início à história: enquanto a sede de conhecimento e poder de Vathek o impele para longe dos caminhos de Alá, ele começa a fazer parte de uma trama complexa que ele desconhece totalmente. Mais do que isso é entregar a história inteira… mas é de se imaginar onde isso vai parar.

O clima de mil e uma noites é recriado fantasticamente por Beckford: as descrições são coloridas, vivas e, principalmente, hiperbólicas. Mas é o exagero de Vathek que constrói o maravilhoso: os milhares de degraus da torre, os servos que derramam continuamente jarros de água na garganta de um califa sedento, os religiosos que expiram na hora em que veem uma blasfêmia, as comitivas com milhares de camelos e servos e concubinas, a seda despojada do reino inteiro para costurar as almofadas de Vathek… o absurdo e a hipérbole, deliciosos, pontilham a trama toda e se acumulam num exagero deleitoso.

Os personagens são cheios de vícios, inconstantes e alternadamente cômicos e trágicos. Alguns, como Carathis, mãe do califa, têm um comportamento constante (nesse caso, sinistro e dado ao ocultismo), mas mesmo o personagem-título é tão humano quando o leitor: vacilante, dado a decisões repentinas, cheio de hesitações. É fascinante que outros personagens, mesmo com participações pequenas, consigam ser tão vivos e cheios de humanidade; ao mesmo tempo, o narrador (onisciente e sardônico) não desvia do verdadeiro foco do livro: a queda do califa e suas desventuras.

Um belo conto árabe escrito por um não-árabe, Vathek é um livro imperdível. É absolutamente imperdoável que, por menos de dez reais, você não leia esse livro. Para os mais puristas, é possível achar a versão original na internet, com direitos autorais caducados. A tradução tem lá seus momentos estranhos, como quando (imagino eu) o corretor ortográfico deve ter substituído o nome “Sutlememe” por “sutilmente”, ou mesmo com a aparição de um “derviche”. De qualquer maneira, essa viagem fantástica por terras distantes não tem preço.

Anúncios

2 Comentários to “Vathek (William Beckford)”

  1. Esse eu garanto!

    Puta livro! E chamo a atenção para os prólogos do gênio Jorge Luis Borges na edição de bolso.

  2. O 6º parágrafo, ” os milhares de degraus da torre, os servos que derramam continuamente jarros de água na garganta de um califa sedento, os religiosos que expiram na hora em que veem uma blasfêmia, as comitivas com milhares de camelos e servos e concubinas, a seda despojada do reino inteiro para costurar as almofadas de Vathek… “, parece um trailler de filme! Muito bom!

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: