O queijo e os vermes (Carlo Ginzburg)

Capa da edição da Companhia das Letras

Terminei esses dias de ler “O queijo e os vermes”, do historiador italiano Carlo Ginzburg. Ainda estou admirado e tentando me punir por não tê-lo lido antes, apesar da insistência de um amigo, que o considera seu livro predileto. No ensaio, o autor discorre a respeito de um processo inquisitorial acontecido no Friuli, região situada no nordeste da Itália, no final do século XVI.

O processo seria apenas mais um entre outros, mas alguns detalhes chamaram a atenção do historiador: o fato de que um moleiro, pouco mais do que um camponês alfabetizado, pudesse ter criado uma cosmogonia tão complexa – e herética – a partir de poucas leituras. O acusado, Domenico Scandella, conhecido como Menocchio, era um morador da cidade de Montereale, conhecido por participar de debates acalorados pelas tavernas e de ter um comportamento tido como herético.

Menocchio acreditava que, no início dos tempos, tudo era caos: todos os elementos – ar, água, fogo e terra – formavam uma massa densa e compacta, e que Deus e os anjos surgiram dessa pasta assim como os vermes surgem do queijo. A estranheza das ideias, assim como a presença de termos cultos entremeados a uma visão camponesa da religião, do paraíso e da mortalidade da alma, muito chamou a atenção dos inquisidores, que dedicaram ao moleiro mais de um interrogatório. Por fim, sendo incapazes de classificar com precisão a heresia de Menocchio, os inquisidores o queimaram a pedido do papa Clemente VIII – mostrando também o quão longe chegaram as diferentes concepções de mundo daquele camponês.

Partindo dos depoimentos de Menego, Carlo Ginzburg traça um roteiro das leituras que ele fez e também da interpretação tão diversa e por vezes tendenciosa que o moleiro fazia dos manuscritos que lhe chegavam em mãos. Isso revela, também, uma complexa rede de leituras e discussões religiosas que ocorriam na época, bem como o papel de certas profissões no mundo camponês medieval: o moinho se tornava palco de discussões e troca de conhecimento, consequentemente dando ao moleiro má reputação, merecida ou não.

Com o cuidado de não cair no mero anedotário, o autor investiga o rol das leituras de Menocchio, partindo do que ele alegava ter lido e conjeturando o que ele poderia ter lido a partir da interpretação singular que ele fazia da informação que absorvia. Isso nos ajuda a entender não só como alguns cultos heréticos se formavam e proliferavam, mas principalmente um outro ponto: como a cultura popular dialoga com a cultura dominante, mesmo que da primeira só tenhamos registros por causa da segunda. Citando o trabalho de Bakhtin sobre Rabelais e a cultura popular, Carlo Ginzburg resgata o conceito de carnaval para esclarecer a complexa relação dialética das culturas – à primeira vista exclusivas – popular e das classes dominantes.

Vale muito a pena, portanto, adentrar o mundo de Menocchio e explorar todas essas questões, postas no papel de maneira surpreendentemente simples e acessível – além do mais, todas as notas e referências bibliográficas estando no final do livro, o leitor pode “modular” seu grau de imersão no assunto. Para os de inclinação mais romântica, infelizmente, já se revela desde o começo que a Inquisição queimara o herói do livro. Não havia salvação para um herege tão criativo e inquiridor como Domenico.

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2 Comentários to “O queijo e os vermes (Carlo Ginzburg)”

  1. Eu deveria saber dizer com certeza, mas sendo relapso como eu sou, só suspeito que seja um micro-historiador. É também outro movimento essa tendência de escrever para ser lido (em vez de escrever para ser masturbado intelectualmente) e ter um trabalho com uma carga mais literária. Pessoalmente acho bacana.

    E bacana a resenha, em especial. Engraçado a teoria do Domenico margear, certa forma, um pouco de big bang e abiogênese cósmica-cosmológica. Dá o que pensar.

    Ah, Companhia das Letras… por que não vens à bendita festa do livro da FFLCH?

  2. Estou desde ontem tentando um comentário para esta resenha. É uma boa resenha, então merece um bom comentário, mas eu não sei o que dizer. Queria fazer mais que aquele elogio de amigo que nem leu, sabe? Mas sei lá como se comenta uma resenha sem ler o objeto dela. Então faço o seguinte: vou atrás do livro, porque fiquei bem interessado e impressionado, e volto com um comentário de verdade quando tiver lido!

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