O crime perfeito

Ele se inquietava em sua cadeira. Já não agüentava mais ouvir aquela gente falando; nos últimos dias, sua mente tendia a divagar muito mais do que o usual, levando-o a horizontes que os outros alunos jamais sonhariam em visitar. Nestes dias de ócio, ele costumava fantasiar sobre qualquer coisa que viesse à mente, em uma espécie de passividade intelectual que o tomava irremediavelmente na segunda aula do dia; nestes momentos, ele simplesmente se distraía e deixava sua mente o levar, como em um sonho: pensamentos aleatórios e imagens dispersas afloravam e bruxuleavam, desaparecendo em frações de segundos – nestes momentos é que as idéias costumavam aparecer.

Já tivera ótimas idéias durante suas divagações, pensamentos que por vezes salvavam situações perdidas, que enriqueciam seus trabalhos, que simplesmente apareciam e desapareciam em questão de dias… e foi em uma aula especialmente maçante, no calor de uma manhã de março, que um pensamento renitente veio à tona. Ele já tivera seus atritos com esta professora antes, por uma simples questão: ela odiava que seus alunos não a fitassem intensamente no curso de uma aula – ele sempre estava distante, e isso a incomodava. Prestando uma atenção disfarçada, ele conjeturava: “se alguém matasse essa velha… mas como fazer isso sem chamar atenção? Eu detesto a maldita, e vice-versa, todo mundo sabe… apontariam para mim na primeira oportunidade!”. Dissimulando sua atenção na aula, ele formava mil imagens macabras em sua mente, mil mortes para sua maior inimiga.

Ela se recusara a ligar o ventilador, a despeito do calor – sua voz não seria ouvida com o som do motor. Ela negava todos os pedidos de idas ao bebedouro ou ao banheiro – ninguém poderia perder nenhum pedaço de tão importante aula. Ela não dava chance de qualquer participação dos alunos – não havia tempo a perder. Ele a odiava, com todas as células de seu corpo, e sabia não ser o único. O calor estava opressivo: o ar, pesado e estagnado, impregnava-se com o suor dos alunos; via-se o suor despontando nas testas e axilas, manchas se formavam nas roupas dos estudantes. Nenhum som se ouvia além da voz da professora e do estridente – e mortificante – guincho do giz.

Ele não se deixava intimidar: fixava seus olhos em sua adversária e pensava… o que seria o crime perfeito? Claro, o crime perfeito seria aquele jamais descoberto, com o assassino impune, para sempre, sem que ninguém jamais suspeitasse dele; mas, assassinando a professora, todos os olhos se voltariam para os alunos problemáticos… contudo, e se alguém desconhecido a matasse? Nunca traçariam o paralelo entre o matador e a vítima… mas o que o homicida ganharia com isso? Não adiantava ser algum criminoso contratado, eles não costumam ter honra e entregam seus empregadores no primeiro interrogatório; como, então? Esperaria anos até que algum maluco teorizasse esta mesma coisa e resolvesse, por sorte, testá-la em sua odiosa mestra, por algum puro golpe de sorte? Espere, se isso acontecesse, os olhos também se voltariam contra ele… mas nada poderia ser provado, porque ele estaria isento de qualquer participação, teria álibis perfeitos e nenhuma conclusão sairia dali…

O sinal do colégio o despertou. Agora ele podia notar que o sol já havia se ido há muito, e que uma daquelas pesadas chuvas de verão se formava. A temperatura diminuíra agradavelmente, mas o fantasma da tormenta ainda pairava. Sem nem olhar para trás – poderia perder o controle –, ele abandonou a sala e se dirigiu à saída. As primeiras gotas já esboçavam cair quando ele saiu da escola, sem falar com ninguém; aquela idéia se impregnara em sua cabeça, e tudo parecia ser isso: a professora já nem fazia mais parte dos devaneios.

E a água desabou, gélida e reconfortante; sem proteção, ele apenas andava despreocupado, sem notar toda a correria dos desprevenidos que procuravam abrigo da tempestade. A chuva, ele estava encharcado pelos enormes pingos que dela se desprendiam, e a visão se tornava turva; já não se via mais ninguém andando pelas ruas, ele vagava só – ele e seu pensamento. Ondas de curiosidade varriam sua mente; um misto de nervosismo e excitação o tomava… até que ele viu uma pessoa. Uma criança andava, ensopada como ele, protegendo alguma espécie de pacote – era tudo que ele esperava.

Rapidamente procurou por algo em sua mochila: qualquer coisa, mas não havia nada que ele pudesse efetivamente usar; então correu ao encontro da menina. Esta, ao notar o olhar celerado do outro, começou a correr e gritar – mas, com a chuva e os trovões ribombando mais alto, foi inútil. Eles correram por alguns metros, mas ela, com o prejuízo da idade – ela deveria ter uns nove anos –, não pôde resistir por muito. Ele saltou sobre ela, em descontrolado frenesi, e começou a estrangulá-la – fracamente, ela gritava, mas seus gritos se tornavam cada vez mais débeis, até que… ela cessou de resistir. O pacote caíra e rolara, sozinho, para uma sarjeta, seguindo a correnteza. Ele ainda apertou mais, ignorando a letargia da garota; quando finalmente percebeu o que fizera, ela jazia imóvel, uma grotesca figura sob um muro inacabado – uma pálida e quase angelical criança morta, sua expressão dorida tirando-a do paraíso, deixando-a semi-submersa em pequenas poças que a velha calçada formara.

Ele ficou observando sua vítima por minutos, em uma espécie de mórbida catatonia; até que entendeu o que fizera. Apavorado, saiu correndo dali. Ninguém havia visto o torpe espetáculo, o vil e covarde assassinato. Ele se dirigiu a seu refúgio; entrou em sua casa, tomou um banho e foi dormir. Tinha aula no dia seguinte.

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2 Comentários to “O crime perfeito”

  1. Esse é um conto escrito há alguns anos, publicado na Spell e recentemente revisado. Hoje, a linguagem não me agrada muito, me parece meio excessiva, mas…

  2. Achei o estilo bem diferente dos seus últimos que li. A maneira de descrever as sensações por algum motivo me lembrou de uns contos antigos meus (especialmente pelo fato de ser só um personagem divagando; eu vivia fazendo continhos do tipo).

    Mas sei não, não gostei do final. Não falo do enredo, mas da maneira como aconteceu; foi meio súbito demais, sei lá.

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