01/02/2015

Punho do tigre e da garça

jimmy wang yu

Mestre sim, apesar da cara de bom moço.

Hu hao shuang xing (Tiger and crane fist ou Savage killers, 1976) é um clássico do cinema de kung fu chinês, muito embora seja conhecido pela duvidosa homenagem Kung pow! Enter the Fist (2002) – outros filmes, como Os cinco dedos da morte (1972) tiveram melhor sorte e têm referências em Kill Bill, por exemplo. Para o entusiasta, Tiger and crane fist tem de tudo: atuação duvidosa, sincronização ruim da dublagem, nenhum romance, efeitos sonoros ultrajantes, trama mínima, vilões não-chineses, estilos de luta baseados em animais e o mestre Jimmy Wang Yu. O filme One-armed swordsman (1967), estrelado por Wang Yu, foi um dos pioneiros do novo cinema de ação chinês, e considerado um dos responsáveis pela explosão do estilo nos anos seguintes. Depois disso, ele estreou em clássicos absolutos como O mestre da guilhotina voadora (1976) e atua até hoje no cinema chinês.

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29/12/2012

O filme do livro: Crows Zero

Baseado no mangá homônimo de Hiroshi Takahashi, Crows Zero foca sua história no período anterior à história dos quadrinhos.  O que pode parecer estranho para os fãs, a princípio, se revela uma bênção disfarçada: o filme consegue, mesmo tentando emular a atmosfera do mangá, superar em todos os aspectos sua história de origem e proporcionar algo completamente novo mesmo para quem tem acompanhado os quadrinhos de perto. Obviamente, leitores do mangá reconhecerão alguns personagens, como Rindaman ou o trio que acompanha Bouya Harumichi, mas as referências são só um bônus.

A ação se passa em Suzuran, a “escola dos corvos”, conhecida pela brutalidade de suas gangues, que vivem a competir em busca de uma inédita façanha: unificar todos os grupos rivais da instituição sob um único líder. O filme acompanha a tentativa de Genji Takiya, o mimado filho de um chefão da Yakuza, para superar seu próprio pai – um ex-aluno de Suzuran – e tentar dominar a escola. Para isso, ele deve superar Tamao Serizawa, o “rei das feras”, o aluno mais próximo de dominar o colégio.

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17/11/2010

Regras da casa: War

Para todos nós que crescemos sem conhecer Risk, um certo jogo “inspirado” no original franco-americano fazia a alegria das nossas tardes de infância: o War da Grow. Apesar de se intitular “o jogo da estratégia”, o War ainda tem uma falha um pouco incômoda: para conquistar certos territórios, você precisa de um misto de sorte e de superioridade avassaladora de exércitos. Ou seja, jogue a estratégia pela janela, tente fazer trocas e ataque seu vizinho com cinquenta exércitos se quiser triunfar.

Um dos problemas que conseguimos ver agora, com a devida distância (e a parte da infância é mentira, eu jogo e arrumo briga até hoje por causa do jogo), é que o sistema de rolagem de dados do War não favorece o ataque. Pois é. E nem precisamos ser gênios da matemática para entender: já antes do meio-jogo, é comum que haja mais de três defensores em diversos lugares do tabuleiro, certo? Agora imagine que três ou mais atacantes pretendam conquistar esse lugar. O resultado é uma nem-sempre-hilária batalha de três contra três… e o empate é considerado vitória da defesa. Continue lendo

09/11/2010

Vathek (William Beckford)

Seguramente um de meus livros preferidos, Vathek (1782) é uma novela de leitura rápida e fluida: com pouco mais de 140 páginas (no livro de bolso aí ao lado), esse dito “conto árabe” escrito em francês por um britânico promete terminar tão logo tenha começado e deixando o leitor sem querer terminá-lo, com medo de quebrar o encanto de um mundo tão vivaz e maravilhoso.

Escrito no final do século XVIII, Vathek sofre uma pesada influência do orientalismo vigente na época: quando o Ocidente voltou seus olhos para as arábias, especialmente depois da “tradução” de Galland das 1001 noites, no começo do século, criou-se uma tendência de romantizar e recriar histórias, costumes e situações dessas mágicas terras distantes. Beckford afirmava que havia escrito o livro em dois ou três dias, em um surto febril de inspiração. Sabe-se também que um califa real inspirou a história, apesar do “enxerto do maravilhoso” ser todo da autoria do autor britânico. Continue lendo

21/10/2010

O queijo e os vermes (Carlo Ginzburg)

Capa da edição da Companhia das Letras

Terminei esses dias de ler “O queijo e os vermes”, do historiador italiano Carlo Ginzburg. Ainda estou admirado e tentando me punir por não tê-lo lido antes, apesar da insistência de um amigo, que o considera seu livro predileto. No ensaio, o autor discorre a respeito de um processo inquisitorial acontecido no Friuli, região situada no nordeste da Itália, no final do século XVI.

O processo seria apenas mais um entre outros, mas alguns detalhes chamaram a atenção do historiador: o fato de que um moleiro, pouco mais do que um camponês alfabetizado, pudesse ter criado uma cosmogonia tão complexa – e herética – a partir de poucas leituras. O acusado, Domenico Scandella, conhecido como Menocchio, era um morador da cidade de Montereale, conhecido por participar de debates acalorados pelas tavernas e de ter um comportamento tido como herético. Continue lendo

14/06/2010

De peito aberto

Já era tradição: quinta-feira, lanche de churrasco com queijo na padaria da subida. Eu gostava de dizer “da subida” porque dava um tom de sacrifício, uma quebra na rotina sedentária para justamente comer algo nada saudável. Trabalhar muito em casa me deixava meio deprimido, então era bom criar esses hábitos forçados, ver gente, sair um pouco da nuvem de poeira e pelos de cachorro.

Quinta também era dia de me juntar aos machos de plantão do bairro e ficar na padaria secando a bela Luísa. Eu acho que é um pouco daquela ingenuidade de motorista de ônibus, sempre dando carona para a mulherada e, claro, nunca pegando nenhuma. A mulher esperta se aproveita, economiza a passagem e, de quebra, parte uns dois ou três corações por dia. Continue lendo

21/05/2010

Quórum

Era um plano simples: reclamar de dores misteriosas por semanas, comprar atestados médicos de uns açougueiros para justificar as faltas no trabalho, subornar o legista, pagar uma funerária – haja dinheiro! – e, depois, simular sua própria morte.

A pergunta martelava a cabeça já meio febril: quem iria? Quem não iria? Quem estaria chorando? Quem estaria de óculos escuros só fingindo chorar? Quem traria mais flores? Quem não vestiria preto? Ele se deliciava com as possibilidades, já sentia uns frêmitos de emoção contida, já sorria de antemão só de imaginar. Continue lendo

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19/05/2010

O crime perfeito

Ele se inquietava em sua cadeira. Já não agüentava mais ouvir aquela gente falando; nos últimos dias, sua mente tendia a divagar muito mais do que o usual, levando-o a horizontes que os outros alunos jamais sonhariam em visitar. Nestes dias de ócio, ele costumava fantasiar sobre qualquer coisa que viesse à mente, em uma espécie de passividade intelectual que o tomava irremediavelmente na segunda aula do dia; nestes momentos, ele simplesmente se distraía e deixava sua mente o levar, como em um sonho: pensamentos aleatórios e imagens dispersas afloravam e bruxuleavam, desaparecendo em frações de segundos – nestes momentos é que as idéias costumavam aparecer. Continue lendo

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14/05/2010

Roubiscoitando

A barriga tremegritava. O menino fomeava e sozinhava no quarto quietescuro. Dardolhou em todorredor, mas mamãe inestava… prepensou em gritejar e chorulhar por ela, mas com todos inestando, pra quê? Era hora de rapidagir.

Porcimou a gradiúncula do berço e pulitou no chão. As almofadas, amortecentes, desdeixaram o menino na mão. A mãe bravejaria, mas o menino só estava meninando! Quem inesperaria algassim?

Alegreiro, o menino avançozinhou pelo chão durifrio. De supetanto, sossurgiu um quadrivulto: um amigo cachorrava latinte e lambia e relambia e trelambia o menino, que gargalhejava muitamente. Continue lendo