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	<title>Encyclopaedia Eronnica</title>
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	<description>Reunião de escritos aleatórios.</description>
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		<title>Regras da casa: War</title>
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		<pubDate>Wed, 17 Nov 2010 22:26:19 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Felipe S.</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Para todos nós que crescemos sem conhecer Risk, um certo jogo &#8220;inspirado&#8221; no original franco-americano fazia a alegria das nossas tardes de infância: o War da Grow. Apesar de se intitular &#8220;o jogo da estratégia&#8221;, o War ainda tem uma falha um pouco incômoda: para conquistar certos territórios, você precisa de um misto de sorte [...]<img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=eronzalez.wordpress.com&amp;blog=13647208&amp;post=50&amp;subd=eronzalez&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align:justify;"><a href="http://eronzalez.files.wordpress.com/2010/11/374841_1gg.jpg"><img class="alignright size-medium wp-image-51" title="374841_1GG" src="http://eronzalez.files.wordpress.com/2010/11/374841_1gg.jpg?w=300&#038;h=300" alt="" width="300" height="300" /></a>Para todos nós que crescemos sem conhecer <a href="http://www.hasbro.com/risk" target="_blank">Risk</a>, um certo jogo &#8220;inspirado&#8221; no original franco-americano fazia a alegria das nossas tardes de infância: o <a href="http://www.grow.com.br/Categoria/JogosDestaque.aspx?id=3" target="_blank">War da Grow</a>. Apesar de se intitular &#8220;o jogo da estratégia&#8221;, o War ainda tem uma falha um pouco incômoda: para conquistar certos territórios, você precisa de um misto de sorte e de superioridade avassaladora de exércitos. Ou seja, jogue a estratégia pela janela, tente fazer trocas e ataque seu vizinho com cinquenta exércitos se quiser triunfar.</p>
<p style="text-align:justify;">Um dos problemas que conseguimos ver agora, com a devida distância (e a parte da infância é mentira, eu jogo e arrumo briga até hoje por causa do jogo), é que <em>o sistema de rolagem de dados do War não favorece o ataque</em>. Pois é. E nem precisamos ser gênios da matemática para entender: já antes do meio-jogo, é comum que haja mais de três defensores em diversos lugares do tabuleiro, certo? Agora imagine que três ou mais atacantes pretendam conquistar esse lugar. O resultado é uma nem-sempre-hilária batalha de três contra três&#8230; e o empate é considerado vitória da defesa.<span id="more-50"></span></p>
<p style="text-align:justify;">Pergunta: quem tem mais chance de vencer? Quem já viu um massacre desses pode dizer: <em>a defesa tem vantagem</em>. E é simplesmente horrível que seja possível atacar e perder <strong>todos</strong> os exércitos envolvidos no ataque, o que leva a uma situação comum e que alonga jogos de War Brasil afora&#8230; acúmulo desenfreado de exércitos. Num sistema em que atacar é a pior opção, o atacante começa a acumular exércitos. Vendo-se ameaçado, o defensor <em>também</em> começa a acumular exércitos. E os outros jogadores vão (sem culpa, afinal) fumar um cigarro, ver TV ou tomar um café quando percebem que um embate de setenta exércitos contra sessenta outros exércitos vai começar.</p>
<p style="text-align:justify;">Solução simples? <strong>Retire um dado da defesa.</strong></p>
<p style="text-align:justify;">Risk tem um dado a menos para a defesa e funciona horrores. A lógica é simples, infantil: para poder dar alguma vantagem para o ataque, que tal se ele jogar três dados e descartar o menor? Ao passo que, mesmo para a defesa, é bom perder apenas dois exércitos de uma vez (no pior dos casos), além de contar com a vantagem do empate.</p>
<p style="text-align:justify;">A Grow resolveu economizar o dinheiro de um estatístico ao <del>plagiar</del> se inspirar  no Risk, e veja no que deu. Mas como meus conhecimentos numéricos e combinatórios são nulos, pedi a alguém competente que fizesse uma simulação, e eis os resultados do egrégio estatístico Ruben Ladwig (com uma devida tolerância de uns 2% por se tratar de uma simulação de dados):</p>
<p style="text-align:center;"><strong>3 dados contra 3 dados</strong></p>
<ul>
<li>Ataque vence os três confrontos: 13.23%</li>
<li>Ataque vence dois, defesa vence um: 21.84%</li>
<li>Ataque vence um, defesa vence dois: 25.95%</li>
<li>Defesa vence os três confrontos: 38.98%</li>
</ul>
<p style="text-align:justify;">O que vemos aqui é que a defesa se saiu bem em quase 65% dos casos, e que para o ataque existe uma chance muito pequena de vencer todas as vezes. Ou seja, atacar é um mau negócio.</p>
<p style="text-align:center;"><strong>3 dados contra 2 dados</strong></p>
<ul>
<li>Ataque vence os dois confrontos: 37.21%</li>
<li>Ataque vence um, defesa vence um: 33.83%</li>
<li>Defesa vence os dois confrontos: 28.96%</li>
</ul>
<p style="text-align:justify;">Os resultados falam por si: aqui é vantajoso atacar, porque há mais chances para o exército que tiver a iniciativa e existe uma situação intermediária de &#8220;cada um vence um&#8221; que favorece quem estiver em vantagem numérica.</p>
<p style="text-align:justify;">Portanto, pense melhor. Não precisa pensar em regras loucas, fazer simulações ou adotar muitos equipamentos de fora do jogo. Da próxima vez que for jogar War, favoreça a agilidade, a estratégia e a iniciativa ao atacar. Faça um teste&#8230; e simplesmente deixe um dado amarelo na caixa. A experiência de jogo é outra, eu garanto.</p>
<br />  <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gocomments/eronzalez.wordpress.com/50/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/comments/eronzalez.wordpress.com/50/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/godelicious/eronzalez.wordpress.com/50/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/delicious/eronzalez.wordpress.com/50/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gofacebook/eronzalez.wordpress.com/50/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/facebook/eronzalez.wordpress.com/50/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gotwitter/eronzalez.wordpress.com/50/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/twitter/eronzalez.wordpress.com/50/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gostumble/eronzalez.wordpress.com/50/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/stumble/eronzalez.wordpress.com/50/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/godigg/eronzalez.wordpress.com/50/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/digg/eronzalez.wordpress.com/50/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/goreddit/eronzalez.wordpress.com/50/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/reddit/eronzalez.wordpress.com/50/" /></a> <img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=eronzalez.wordpress.com&amp;blog=13647208&amp;post=50&amp;subd=eronzalez&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></content:encoded>
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		<title>Vathek (William Beckford)</title>
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		<pubDate>Tue, 09 Nov 2010 19:31:34 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Felipe S.</dc:creator>
				<category><![CDATA[Resenha]]></category>
		<category><![CDATA[gótico]]></category>
		<category><![CDATA[literatura]]></category>
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		<category><![CDATA[Vathek]]></category>
		<category><![CDATA[William Beckford]]></category>

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		<description><![CDATA[Seguramente um de meus livros preferidos, Vathek (1782) é uma novela de leitura rápida e fluida: com pouco mais de 140 páginas (no livro de bolso aí ao lado), esse dito &#8220;conto árabe&#8221; escrito em francês por um britânico promete terminar tão logo tenha começado e deixando o leitor sem querer terminá-lo, com medo de [...]<img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=eronzalez.wordpress.com&amp;blog=13647208&amp;post=42&amp;subd=eronzalez&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><a href="http://eronzalez.files.wordpress.com/2010/11/vathek1.jpg"><img class="alignright size-medium wp-image-44" title="Vathek" src="http://eronzalez.files.wordpress.com/2010/11/vathek1.jpg?w=177&#038;h=300" alt="" width="177" height="300" /></a>Seguramente um de meus livros preferidos, <em>Vathek</em> (1782) é uma novela de leitura rápida e fluida: com pouco mais de 140 páginas (no livro de bolso aí ao lado), esse dito &#8220;conto árabe&#8221; escrito em francês por um britânico promete terminar tão logo tenha começado e deixando o leitor sem querer terminá-lo, com medo de quebrar o encanto de um mundo tão vivaz e maravilhoso.</p>
<p>Escrito no final do século XVIII, <em>Vathek </em>sofre uma pesada influência do orientalismo vigente na época: quando o Ocidente voltou seus olhos para as arábias, especialmente depois da &#8220;tradução&#8221; de Galland das <em>1001 noites, </em>no começo do século, criou-se uma tendência de romantizar e recriar histórias, costumes e situações dessas mágicas terras distantes. Beckford afirmava que havia escrito o livro em dois ou três dias, em um surto febril de inspiração. Sabe-se também que um califa real inspirou a história, apesar do &#8220;enxerto do maravilhoso&#8221; ser todo da autoria do autor britânico.<span id="more-42"></span></p>
<p><em>Vathek </em>conta a história do califa homônimo, um governante cheio de esplendor, mas dado às paixões: tendo construído um palácio para cada um dos cinco sentidos, o monarca passava boa parte de seu tempo deliciando-se com as sensações que eles lhe proporcionavam. Era amado pelo povo, temido por seu temível olhar (que fulminava as vítimas na hora) e também tido em baixa conta pelos religiosos mais próximos, que viam seu comportamento desregrado como um afastamento das leis do Profeta.</p>
<p>Entretanto, maior que a glutonice de Vathek era sua curiosidade: ávido por conhecimento, muito lia e estudava, principalmente as artes ocultas. Entrava em debates, consultava as estrelas e chegou a construir uma enorme torre para ficar mais perto dos astros. E nesse simulacro de Babel é que ele recebeu um portento que daria início a sua maior aventura: a visita de um estrangeiro, vindo de terras distantes, que lhe revelaria os maiores segredos da Terra.</p>
<p>E é justamente a vinda desse estrangeiro que dá início à história: enquanto a sede de conhecimento e poder de Vathek o impele para longe dos caminhos de Alá, ele começa a fazer parte de uma trama complexa que ele desconhece totalmente. Mais do que isso é entregar a história inteira&#8230; mas é de se imaginar onde isso vai parar.</p>
<p>O clima de mil e uma noites é recriado fantasticamente por Beckford: as descrições são coloridas, vivas e, principalmente, hiperbólicas. Mas é o exagero de <em>Vathek </em>que constrói o maravilhoso: os milhares de degraus da torre, os servos que derramam continuamente jarros de água na garganta de um califa sedento, os religiosos que expiram na hora em que veem uma blasfêmia, as comitivas com milhares de camelos e servos e concubinas, a seda despojada do reino inteiro para costurar as almofadas de Vathek&#8230; o absurdo e a hipérbole, deliciosos, pontilham a trama toda e se acumulam num exagero deleitoso.</p>
<p>Os personagens são cheios de vícios, inconstantes e alternadamente cômicos e trágicos. Alguns, como Carathis, mãe do califa, têm um comportamento constante (nesse caso, sinistro e dado ao ocultismo), mas mesmo o personagem-título é tão humano quando o leitor: vacilante, dado a decisões repentinas, cheio de hesitações. É fascinante que outros personagens, mesmo com participações pequenas, consigam ser tão vivos e cheios de humanidade; ao mesmo tempo, o narrador (onisciente e sardônico) não desvia do verdadeiro foco do livro: a queda do califa e suas desventuras.</p>
<p>Um belo conto árabe escrito por um não-árabe, <em>Vathek</em> é um livro imperdível. É absolutamente imperdoável que, <a href="http://compare.buscape.com.br/vathek-beckford-william-8525406201.html?pos=1" target="_blank">por menos de dez reais</a>, você não leia esse livro. Para os mais puristas, é possível <a href="http://www.gutenberg.org/ebooks/2060" target="_blank">achar a versão original na internet</a>, com direitos autorais caducados. A tradução tem lá seus momentos estranhos, como quando (imagino eu) o corretor ortográfico deve ter substituído o nome &#8220;Sutlememe&#8221; por &#8220;sutilmente&#8221;, ou mesmo com a aparição de um &#8220;derviche&#8221;. De qualquer maneira, essa viagem fantástica por terras distantes não tem preço.</p>
<br />  <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gocomments/eronzalez.wordpress.com/42/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/comments/eronzalez.wordpress.com/42/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/godelicious/eronzalez.wordpress.com/42/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/delicious/eronzalez.wordpress.com/42/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gofacebook/eronzalez.wordpress.com/42/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/facebook/eronzalez.wordpress.com/42/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gotwitter/eronzalez.wordpress.com/42/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/twitter/eronzalez.wordpress.com/42/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gostumble/eronzalez.wordpress.com/42/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/stumble/eronzalez.wordpress.com/42/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/godigg/eronzalez.wordpress.com/42/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/digg/eronzalez.wordpress.com/42/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/goreddit/eronzalez.wordpress.com/42/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/reddit/eronzalez.wordpress.com/42/" /></a> <img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=eronzalez.wordpress.com&amp;blog=13647208&amp;post=42&amp;subd=eronzalez&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></content:encoded>
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		<title>O queijo e os vermes (Carlo Ginzburg)</title>
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		<pubDate>Thu, 21 Oct 2010 21:26:33 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Felipe S.</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Terminei esses dias de ler “O queijo e os vermes”, do historiador italiano Carlo Ginzburg. Ainda estou admirado e tentando me punir por não tê-lo lido antes, apesar da insistência de um amigo, que o considera seu livro predileto. No ensaio, o autor discorre a respeito de um processo inquisitorial acontecido no Friuli, região situada [...]<img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=eronzalez.wordpress.com&amp;blog=13647208&amp;post=37&amp;subd=eronzalez&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><a href="http://eronzalez.files.wordpress.com/2010/10/163603g0.jpg"><img class="alignleft size-medium wp-image-38" title="163603g0" src="http://eronzalez.files.wordpress.com/2010/10/163603g0.jpg?w=208&#038;h=300" alt="Capa da edição da Companhia das Letras" width="208" height="300" /></a></p>
<p style="text-align:justify;">Terminei esses dias de ler <a href="http://www.americanas.com.br/produto/5544013/livros/historiaegeografia/historiageral/livro-o-queijo-e-os-vermes-livro-de-bolso">“O queijo e os vermes”</a>, do historiador italiano Carlo Ginzburg. Ainda estou admirado e tentando me punir por não tê-lo lido antes, apesar da insistência de um amigo, que o considera seu livro predileto. No ensaio, o autor discorre a respeito de um processo inquisitorial acontecido no Friuli, região situada no nordeste da Itália, no final do século XVI.</p>
<p style="text-align:justify;">O processo seria apenas mais um entre outros, mas alguns detalhes chamaram a atenção do historiador: o fato de que um moleiro, pouco mais do que um camponês alfabetizado, pudesse ter criado uma cosmogonia tão complexa – e herética – a partir de poucas leituras. O acusado, Domenico Scandella, conhecido como Menocchio, era um morador da cidade de Montereale, conhecido por participar de debates acalorados pelas tavernas e de ter um comportamento tido como herético.<span id="more-37"></span></p>
<p style="text-align:justify;">Menocchio acreditava que, no início dos tempos, tudo era caos: todos os elementos – ar, água, fogo e terra – formavam uma massa densa e compacta, e que Deus e os anjos surgiram dessa pasta assim como os vermes surgem do queijo. A estranheza das ideias, assim como a presença de termos cultos entremeados a uma visão camponesa da religião, do paraíso e da mortalidade da alma, muito chamou a atenção dos inquisidores, que dedicaram ao moleiro mais de um interrogatório. Por fim, sendo incapazes de classificar com precisão a heresia de Menocchio, os inquisidores o queimaram a pedido do papa Clemente VIII – mostrando também o quão longe chegaram as diferentes concepções de mundo daquele camponês.</p>
<p style="text-align:justify;">Partindo dos depoimentos de Menego, Carlo Ginzburg traça um roteiro das leituras que ele fez e também da interpretação tão diversa e por vezes tendenciosa que o moleiro fazia dos manuscritos que lhe chegavam em mãos. Isso revela, também, uma complexa rede de leituras e discussões religiosas que ocorriam na época, bem como o papel de certas profissões no mundo camponês medieval: o moinho se tornava palco de discussões e troca de conhecimento, consequentemente dando ao moleiro má reputação, merecida ou não.</p>
<p style="text-align:justify;">Com o cuidado de não cair no mero anedotário, o autor investiga o rol das leituras de Menocchio, partindo do que ele alegava ter lido e conjeturando o que ele poderia ter lido a partir da interpretação singular que ele fazia da informação que absorvia. Isso nos ajuda a entender não só como alguns cultos heréticos se formavam e proliferavam, mas principalmente um outro ponto: como a cultura popular dialoga com a cultura dominante, mesmo que da primeira só tenhamos registros por causa da segunda. Citando o trabalho de Bakhtin sobre Rabelais e a cultura popular, Carlo Ginzburg resgata o conceito de carnaval para esclarecer a complexa relação dialética das culturas – à primeira vista exclusivas – popular e das classes dominantes.</p>
<p style="text-align:justify;">Vale muito a pena, portanto, adentrar o mundo de Menocchio e explorar todas essas questões, postas no papel de maneira surpreendentemente simples e acessível – além do mais, todas as notas e referências bibliográficas estando no final do livro, o leitor pode “modular” seu grau de imersão no assunto. Para os de inclinação mais romântica, infelizmente, já se revela desde o começo que a Inquisição queimara o herói do livro. Não havia salvação para um herege tão criativo e inquiridor como Domenico.</p>
<br />  <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gocomments/eronzalez.wordpress.com/37/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/comments/eronzalez.wordpress.com/37/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/godelicious/eronzalez.wordpress.com/37/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/delicious/eronzalez.wordpress.com/37/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gofacebook/eronzalez.wordpress.com/37/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/facebook/eronzalez.wordpress.com/37/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gotwitter/eronzalez.wordpress.com/37/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/twitter/eronzalez.wordpress.com/37/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gostumble/eronzalez.wordpress.com/37/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/stumble/eronzalez.wordpress.com/37/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/godigg/eronzalez.wordpress.com/37/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/digg/eronzalez.wordpress.com/37/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/goreddit/eronzalez.wordpress.com/37/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/reddit/eronzalez.wordpress.com/37/" /></a> <img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=eronzalez.wordpress.com&amp;blog=13647208&amp;post=37&amp;subd=eronzalez&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></content:encoded>
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		<title>De peito aberto</title>
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		<pubDate>Mon, 14 Jun 2010 03:43:51 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Felipe S.</dc:creator>
				<category><![CDATA[Conto]]></category>
		<category><![CDATA[conto]]></category>
		<category><![CDATA[de peito aberto]]></category>

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		<description><![CDATA[Já era tradição: quinta-feira, lanche de churrasco com queijo na padaria da subida. Eu gostava de dizer “da subida” porque dava um tom de sacrifício, uma quebra na rotina sedentária para justamente comer algo nada saudável. Trabalhar muito em casa me deixava meio deprimido, então era bom criar esses hábitos forçados, ver gente, sair um [...]<img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=eronzalez.wordpress.com&amp;blog=13647208&amp;post=27&amp;subd=eronzalez&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><a href="http://eronzalez.files.wordpress.com/2010/06/balcao20lanchonete5.jpg"><img class="alignleft size-medium wp-image-28" title="Balcão" src="http://eronzalez.files.wordpress.com/2010/06/balcao20lanchonete5.jpg?w=300&#038;h=225" alt="" width="300" height="225" /></a></p>
<p style="text-align:justify;">Já era tradição: quinta-feira, lanche de churrasco com queijo na padaria da subida. Eu gostava de dizer “da subida” porque dava um tom de sacrifício, uma quebra na rotina sedentária para justamente comer algo nada saudável. Trabalhar muito em casa me deixava meio deprimido, então era bom criar esses hábitos forçados, ver gente, sair um pouco da nuvem de poeira e pelos de cachorro.</p>
<p>Quinta também era dia de me juntar aos machos de plantão do bairro e ficar na padaria secando a bela Luísa. Eu acho que é um pouco daquela ingenuidade de motorista de ônibus, sempre dando carona para a mulherada e, claro, nunca pegando nenhuma. A mulher esperta se aproveita, economiza a passagem e, de quebra, parte uns dois ou três corações por dia.<span id="more-27"></span></p>
<p>Seu Benedito, comerciante vivo, colocou Luísa num horário estratégico, de happy hour, e encheu a padaria de trabalhadores, colarinhos brancos, aquela alcateia que batia cartão na padaria e ficava ali, gastando o ordenado com cerveja, lanche, petisco e tudo que é consumível. É claro que não era uma horda, não era um fenômeno nacional, mas isso pode ser minha alma de romancista frustrado.</p>
<p>Digressões à parte, a padaria estava meio vazia naquele fim de tarde. Os bêbados contumazes – parte do cenário – estavam por ali, jogando conversa fora. A tevê passando um programa chatíssimo de esportes, e eu ali, esperando meu lanche chegar, tomando café e fazendo cruzadinha. E, sem pedir licença nem nada, me senta um completo estranho bem na minha frente, de costas para o balcão, felizmente não tampando meu calculado ponto de observação.</p>
<p>Foi tão súbito, tão inesperado que, quando esbocei abrir a boca para reclamar, o sujeito puxou a jaqueta aberta de lado e eu vi um brilho acinzentado que me calou de imediato.</p>
<p>– Quietinho aí. Não é nada contigo.</p>
<p>Ele falava baixo e rápido. Deu pra perceber um desespero na voz, uma tristeza no olhar. Ou é meu romancista interno retropoetizando a história. De qualquer maneira, a arma estava ali, pesando no ar, e meu tempo era todo dele.</p>
<p>– Conhece a Luísa, ali do balcão? Minha namorada.</p>
<p>A essa altura, o cara tinha toda razão do mundo. Eu só concordava, monossilábico.</p>
<p>– Conhece também o Valmir, que faz entrega? Vagabunda tá me traindo com ele.</p>
<p>Eu juro que a frase “que que eu tenho a ver com isso?” me passou pela cabeça, mas engoli em seco e resolvi perguntar:</p>
<p>– Você não está pensando em fazer nenhuma bobagem, certo? Olha, tem outros jeitos de resolver isso, cara, não precisa fazer loucura.</p>
<p>Eu suava frio. O sujeito contou sua história, e não haveria nada de mais se a traição dela não tivesse como resultado um homem enlouquecido, armado e disposto a limpar a honra assim que o tal Valmir chegasse. Eles tinham vivido uma tórrida história de amor, ele largara tudo para ficar do lado dela, arrumou casa, começou a montar vida quando ela subitamente começou a ficar estranha, distante&#8230; e os boatos o levaram a descobrir tudo.</p>
<p>– Eu sei que é bobagem, eu sei que eu vou me ferrar. Mas eu não tenho mais nada na vida. E não é esse idiota que vai ter. Se der merda, enfio a arma na boca e me mato.</p>
<p>– Mas escuta&#8230; aí é que não vai adiantar mesmo. Você vai acabar com a vida por causa de mulher? Seu plano é meter bala no outro e depois em você mesmo? Isso não muda nada a vida da Luísa, pelo contrário!</p>
<p>– Eu sei! Eu sei – o sujeito gritava entre dentes, e eu cheguei a achar engraçado uma pessoa gritar baixo –, mas eu já perdi tudo!</p>
<p>– Mas digamos que, de algum modo, você resolvesse essa questão. Ela larga esse Valmir e volta pra você. Não é questão de tempo até acontecer de novo?</p>
<p>Era um argumento bem ruinzinho. Eu sabia que era, mas jogar sujo era o que me restava: pelo menos, o sujeito hesitava. Comecei a ouvir o liquidificador perto do balcão: Luísa provavelmente tinha começado a fazer minha vitamina.</p>
<p>– Eu li uma coisa recentemente, falando justamente disso. Existem dois tipos de amor: o amor mesmo, de passar a vida inteira junto, confiar, conviver, e o amor-paixão, que é isso aí que você sabe. 99% do tempo os dois não andam juntos, entende? Amor-amor é para construir a vida, amor-paixão é para destruir. Sua vida não iria muito longe com a Luísa, ela é fogo de palha, vive pulando de um homem pra outro, deve ter deixado mais de um desesperado igual você. Não é para casar, não é para viver junto, sabe?</p>
<p>Parecia que aquela violência nos olhos dele já estava baixando. Quem sabe eu não conseguisse enrolar mais, buscar ajuda ou mesmo convencê-lo a desistir, quem sabe? Olhava para os lados e nada de resolução rápida, só aquele homem traído e ensandecido e armado na minha frente, com jeito de louco e falando rápido entre dentes. Eu falava sem parar.</p>
<p>– E o amante nem sempre é realmente culpado, sabe? Você não pegou o cara na sua cama, algo assim, certo? Muitas vezes o cara acha que a mulher está solteira, disponível, não sabe que ela leva essa vida dupla, ele não está tentando ferir outro cara, entende?</p>
<p>Meu lanche já estava levando uma eternidade. Luísa parecia não ter visto ainda o sujeito na minha frente, estava discutindo alguma coisa com seu Benedito e, como eu já era de casa, parecia que ela se sentia no direito de me deixar na mão. Eu já estava tagarelando sem controle, e ele hesitava bastante, já não respondia tanto e só fazia que sim com a cabeça.</p>
<p>– Conhece a história de Heloísa e Abelardo? Era uma freira do século XII que teve um caso com um filósofo de origem nobre, alguma coisa assim. Chama da paixão, esqueceram as diferenças que deveriam separá-los, tiveram um filho proibido&#8230; e aí o tio de Heloísa mandou castrar Abelardo. Capar, cortar fora, entende? Os medievais é que sabiam diferenciar o amor que dá futuro do amor que destrói, e seu amor com a Luísa é do último tipo, sabe?</p>
<p>O homem até tentou argumentar um pouco, mas estava obviamente confuso. Senti que estava quase conseguindo, e cheguei até a fazer uma proposta:</p>
<p>– Vamos fazer assim: levanta agora, esquece essa história, põe as coisas da Luísa na rua e vai procurar uma mulher de verdade, cara, joga essa arma no bueiro e deixa tudo isso pra lá. Sério, essa coisa do bueiro é boa ideia, ninguém vai saber: joga lá, é raso, eu vou conferir assim que eu sair, vou esquecer de tudo também, cada um no seu caminho. Combinado?</p>
<p>Súbito, a voz do seu Benedito me gelou a alma:</p>
<p>– Pô, Valmir, tem um monte de entrega na fila e você fica empatando a caminhonete&#8230;</p>
<p>Nem deu tempo de terminar. Jogando a cadeira de lado, meu interlocutor levantou, arma em punho e virou para o balcão. Luísa, seu Benedito e Valmir congelaram, até os bêbados contumazes pararam. Eu nunca tinha acreditado em “segundo que dura uma eternidade”. Mesmo depois do disparo, ficou todo mundo congelado por um tempo. O atirador piscou o olho para mim – ou assim romanceei mais tarde – e foi embora. Ninguém o interpelou, ninguém fez nada, ninguém esboçou reação nenhuma.</p>
<p>Luísa estava caída atrás do balcão, uma mancha vermelha crescente no avental branco, uma rosa no meio do peito. Depois de ajudar a polícia, enquanto eu descia a rua, vi a arma jogada no bueiro, do jeito que eu tinha proposto. O atirador nunca foi pego: não encontraram quase nada na casa que ele montou para Luísa. Eu mesmo nunca mais voltei à padaria, e nunca mais comi um lanche de churrasco com queijo: as duas coisas perderam um certo atrativo. Minhas quintas à tarde são ocupadas com o que quer que me aconteça, e procuro não pensar muito quando elas chegam.</p>
<br />  <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gocomments/eronzalez.wordpress.com/27/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/comments/eronzalez.wordpress.com/27/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/godelicious/eronzalez.wordpress.com/27/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/delicious/eronzalez.wordpress.com/27/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gofacebook/eronzalez.wordpress.com/27/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/facebook/eronzalez.wordpress.com/27/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gotwitter/eronzalez.wordpress.com/27/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/twitter/eronzalez.wordpress.com/27/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gostumble/eronzalez.wordpress.com/27/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/stumble/eronzalez.wordpress.com/27/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/godigg/eronzalez.wordpress.com/27/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/digg/eronzalez.wordpress.com/27/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/goreddit/eronzalez.wordpress.com/27/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/reddit/eronzalez.wordpress.com/27/" /></a> <img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=eronzalez.wordpress.com&amp;blog=13647208&amp;post=27&amp;subd=eronzalez&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></content:encoded>
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			<media:title type="html">Madrouge</media:title>
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		<title>Quórum</title>
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		<pubDate>Fri, 21 May 2010 22:29:06 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Felipe S.</dc:creator>
				<category><![CDATA[Conto]]></category>
		<category><![CDATA[conto]]></category>
		<category><![CDATA[quórum]]></category>

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		<description><![CDATA[Era um plano simples: reclamar de dores misteriosas por semanas, comprar atestados médicos de uns açougueiros para justificar as faltas no trabalho, subornar o legista, pagar uma funerária &#8211; haja dinheiro! &#8211; e, depois, simular sua própria morte. A pergunta martelava a cabeça já meio febril: quem iria? Quem não iria? Quem estaria chorando? Quem [...]<img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=eronzalez.wordpress.com&amp;blog=13647208&amp;post=23&amp;subd=eronzalez&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><a href="http://eronzalez.files.wordpress.com/2010/05/cemetery.jpg"><img class="alignleft size-medium wp-image-24" title="cemetery" src="http://eronzalez.files.wordpress.com/2010/05/cemetery.jpg?w=300&#038;h=176" alt="" width="300" height="176" /></a>Era um plano simples: reclamar de dores misteriosas por semanas, comprar atestados médicos de uns açougueiros para justificar as faltas no trabalho, subornar o legista, pagar uma funerária &#8211; haja dinheiro! &#8211; e, depois, simular sua própria morte.</p>
<p>A pergunta martelava a cabeça já meio febril: quem iria? Quem não iria? Quem estaria chorando? Quem estaria de óculos escuros só fingindo chorar? Quem traria mais flores? Quem não vestiria preto? Ele se deliciava com as possibilidades, já sentia uns frêmitos de emoção contida, já sorria de antemão só de imaginar.<span id="more-23"></span></p>
<p>No dia certo, tudo preparado: testamento para a família, recomendações para os filhos, uma mensagem de celular para a viúva, uma internação às pressas num hospital obscuro em meio a uma viagem de trabalho mais obscura ainda. Diziam que o corpo estava irreconhecível, que era perigoso abrir o caixão por causa da doença, que ver um falecido naquelas condições faria chorar o mais empedernido inimigo.</p>
<p>O pseudomorto aguardava, escondido atrás de uma árvore, de chapéu, sobretudo e óculos escuros, pelo féretro. A ansiedade o corroía por dentro. Na hora do enterro, o padre. Bíblia na mão, depois de uma hora ou duas, só tinha chegado a mãe do morto &#8211; atrasada! &#8211; e a leitura mecânica de alguns versículos se seguiu.</p>
<p>Aquilo era demais. A raiva já lhe saía por todos os poros quando, com um grito desafinado, o morto morreu. Teve um enfarte fulminante.</p>
<p>A mãe fingiu não reconhecer. Foi enterrado como indigente.</p>
<br />  <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gocomments/eronzalez.wordpress.com/23/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/comments/eronzalez.wordpress.com/23/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/godelicious/eronzalez.wordpress.com/23/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/delicious/eronzalez.wordpress.com/23/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gofacebook/eronzalez.wordpress.com/23/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/facebook/eronzalez.wordpress.com/23/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gotwitter/eronzalez.wordpress.com/23/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/twitter/eronzalez.wordpress.com/23/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gostumble/eronzalez.wordpress.com/23/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/stumble/eronzalez.wordpress.com/23/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/godigg/eronzalez.wordpress.com/23/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/digg/eronzalez.wordpress.com/23/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/goreddit/eronzalez.wordpress.com/23/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/reddit/eronzalez.wordpress.com/23/" /></a> <img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=eronzalez.wordpress.com&amp;blog=13647208&amp;post=23&amp;subd=eronzalez&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></content:encoded>
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		<title>O crime perfeito</title>
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		<pubDate>Wed, 19 May 2010 04:59:07 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Felipe S.</dc:creator>
				<category><![CDATA[Conto]]></category>
		<category><![CDATA[conto]]></category>

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		<description><![CDATA[Ele se inquietava em sua cadeira. Já não agüentava mais ouvir aquela gente falando; nos últimos dias, sua mente tendia a divagar muito mais do que o usual, levando-o a horizontes que os outros alunos jamais sonhariam em visitar. Nestes dias de ócio, ele costumava fantasiar sobre qualquer coisa que viesse à mente, em uma espécie de passividade intelectual que o tomava irremediavelmente na segunda aula do dia; nestes momentos, ele simplesmente se distraía e deixava sua mente o levar, como em um sonho: pensamentos aleatórios e imagens dispersas afloravam e bruxuleavam, desaparecendo em frações de segundos – nestes momentos é que as idéias costumavam aparecer.<img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=eronzalez.wordpress.com&amp;blog=13647208&amp;post=13&amp;subd=eronzalez&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align:justify;"><a href="http://eronzalez.files.wordpress.com/2010/05/sarjeta.jpg"><img class="alignleft size-medium wp-image-14" title="sarjeta" src="http://eronzalez.files.wordpress.com/2010/05/sarjeta.jpg?w=228&#038;h=300" alt="" width="228" height="300" /></a></p>
<p style="text-align:justify;">Ele se inquietava em sua cadeira. Já não agüentava mais ouvir aquela gente falando; nos últimos dias, sua mente tendia a divagar muito mais do que o usual, levando-o a horizontes que os outros alunos jamais sonhariam em visitar. Nestes dias de ócio, ele costumava fantasiar sobre qualquer coisa que viesse à mente, em uma espécie de passividade intelectual que o tomava irremediavelmente na segunda aula do dia; nestes momentos, ele simplesmente se distraía e deixava sua mente o levar, como em um sonho: pensamentos aleatórios e imagens dispersas afloravam e bruxuleavam, desaparecendo em frações de segundos – nestes momentos é que as idéias costumavam aparecer.<span id="more-13"></span></p>
<p>Já tivera ótimas idéias durante suas divagações, pensamentos que por vezes salvavam situações perdidas, que enriqueciam seus trabalhos, que simplesmente apareciam e desapareciam em questão de dias&#8230; e foi em uma aula especialmente maçante, no calor de uma manhã de março, que um pensamento renitente veio à tona. Ele já tivera seus atritos com esta professora antes, por uma simples questão: ela odiava que seus alunos não a fitassem intensamente no curso de uma aula – ele sempre estava distante, e isso a incomodava. Prestando uma atenção disfarçada, ele conjeturava: “se alguém matasse essa velha&#8230; mas como fazer isso sem chamar atenção? Eu detesto a maldita, e vice-versa, todo mundo sabe&#8230; apontariam para mim na primeira oportunidade!”. Dissimulando sua atenção na aula, ele formava mil imagens macabras em sua mente, mil mortes para sua maior inimiga.</p>
<p>Ela se recusara a ligar o ventilador, a despeito do calor – sua voz não seria ouvida com o som do motor. Ela negava todos os pedidos de idas ao bebedouro ou ao banheiro – ninguém poderia perder nenhum pedaço de tão importante aula. Ela não dava chance de qualquer participação dos alunos – não havia tempo a perder. Ele a odiava, com todas as células de seu corpo, e sabia não ser o único. O calor estava opressivo: o ar, pesado e estagnado, impregnava-se com o suor dos alunos; via-se o suor despontando nas testas e axilas, manchas se formavam nas roupas dos estudantes. Nenhum som se ouvia além da voz da professora e do estridente – e mortificante – guincho do giz.</p>
<p>Ele não se deixava intimidar: fixava seus olhos em sua adversária e pensava&#8230; o que seria o crime perfeito? Claro, o crime perfeito seria aquele jamais descoberto, com o assassino impune, para sempre, sem que ninguém jamais suspeitasse dele; mas, assassinando a professora, todos os olhos se voltariam para os alunos problemáticos&#8230; contudo, e se alguém desconhecido a matasse? Nunca traçariam o paralelo entre o matador e a vítima&#8230; mas o que o homicida ganharia com isso? Não adiantava ser algum criminoso contratado, eles não costumam ter honra e entregam seus empregadores no primeiro interrogatório; como, então? Esperaria anos até que algum maluco teorizasse esta mesma coisa e resolvesse, por sorte, testá-la em sua odiosa mestra, por algum puro golpe de sorte? Espere, se isso acontecesse, os olhos também se voltariam contra ele&#8230; mas nada poderia ser provado, porque ele estaria isento de qualquer participação, teria álibis perfeitos e nenhuma conclusão sairia dali&#8230;</p>
<p>O sinal do colégio o despertou. Agora ele podia notar que o sol já havia se ido há muito, e que uma daquelas pesadas chuvas de verão se formava. A temperatura diminuíra agradavelmente, mas o fantasma da tormenta ainda pairava. Sem nem olhar para trás – poderia perder o controle –, ele abandonou a sala e se dirigiu à saída. As primeiras gotas já esboçavam cair quando ele saiu da escola, sem falar com ninguém; aquela idéia se impregnara em sua cabeça, e tudo parecia ser isso: a professora já nem fazia mais parte dos devaneios.</p>
<p>E a água desabou, gélida e reconfortante; sem proteção, ele apenas andava despreocupado, sem notar toda a correria dos desprevenidos que procuravam abrigo da tempestade. A chuva, ele estava encharcado pelos enormes pingos que dela se desprendiam, e a visão se tornava turva; já não se via mais ninguém andando pelas ruas, ele vagava só – ele e seu pensamento. Ondas de curiosidade varriam sua mente; um misto de nervosismo e excitação o tomava&#8230; até que ele viu uma pessoa. Uma criança andava, ensopada como ele, protegendo alguma espécie de pacote – era tudo que ele esperava.</p>
<p>Rapidamente procurou por algo em sua mochila: qualquer coisa, mas não havia nada que ele pudesse efetivamente usar; então correu ao encontro da menina. Esta, ao notar o olhar celerado do outro, começou a correr e gritar – mas, com a chuva e os trovões ribombando mais alto, foi inútil. Eles correram por alguns metros, mas ela, com o prejuízo da idade – ela deveria ter uns nove anos –, não pôde resistir por muito. Ele saltou sobre ela, em descontrolado frenesi, e começou a estrangulá-la – fracamente, ela gritava, mas seus gritos se tornavam cada vez mais débeis, até que&#8230; ela cessou de resistir. O pacote caíra e rolara, sozinho, para uma sarjeta, seguindo a correnteza. Ele ainda apertou mais, ignorando a letargia da garota; quando finalmente percebeu o que fizera, ela jazia imóvel, uma grotesca figura sob um muro inacabado – uma pálida e quase angelical criança morta, sua expressão dorida tirando-a do paraíso, deixando-a semi-submersa em pequenas poças que a velha calçada formara.</p>
<p>Ele ficou observando sua vítima por minutos, em uma espécie de mórbida catatonia; até que entendeu o que fizera. Apavorado, saiu correndo dali. Ninguém havia visto o torpe espetáculo, o vil e covarde assassinato. Ele se dirigiu a seu refúgio; entrou em sua casa, tomou um banho e foi dormir. Tinha aula no dia seguinte.</p>
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		<title>Roubiscoitando</title>
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		<pubDate>Fri, 14 May 2010 04:31:10 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Felipe S.</dc:creator>
				<category><![CDATA[Conto]]></category>
		<category><![CDATA[conto]]></category>
		<category><![CDATA[roubiscoitando]]></category>

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		<description><![CDATA[A barriga tremegritava. O menino fomeava e sozinhava no quarto quietescuro. Dardolhou em todorredor, mas mamãe inestava... prepensou em gritejar e chorulhar por ela, mas com todos inestando, pra quê? Era hora de rapidagir.<img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=eronzalez.wordpress.com&amp;blog=13647208&amp;post=7&amp;subd=eronzalez&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></description>
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<p style="text-align:justify;">A barriga tremegritava. O menino fomeava e sozinhava no quarto quietescuro. Dardolhou em todorredor, mas mamãe inestava&#8230; prepensou em gritejar e chorulhar por ela, mas com todos inestando, pra quê? Era hora de rapidagir.</p>
<p>Porcimou a gradiúncula do berço e pulitou no chão. As almofadas, amortecentes, desdeixaram o menino na mão. A mãe bravejaria, mas o menino só estava meninando! Quem inesperaria algassim?</p>
<p>Alegreiro, o menino avançozinhou pelo chão durifrio. De supetanto, sossurgiu um quadrivulto: um amigo cachorrava latinte e lambia e relambia e trelambia o menino, que gargalhejava muitamente.<span id="more-7"></span></p>
<p>Os ambos se entrencaravam: um simulplano se menteformou. O menino seriou. O cão se frentinclinou. Os dois amigavam há tantempo que entreliam pensamentos! O cão, agora cãovalo, corria e trecorria direcionante, previstando o que o menino redesejava.</p>
<p>Na cozinha, menino e cãovalo quietaram: o todambiente suspeiteava. Pontadedearam até o fogarrão (para o menino, grandenorme), e o menino acrobatizante topeou uma cadeira. Cadeiralta. Olhandinho em todorredor, avançador, o traquinão limiteou a mesa mas!</p>
<p>Um buraquíssimo entreava o menino, agora um fomenino estomagritante, e os biscoitos já triscoitos que ele vistava. Corajou. A fome era fomíssima. Vai lá, vai lá&#8230;</p>
<p>&#8230;vai lou! O menino malpendurava no balcão abismoso, mas queria roubolachar e se dobresforçou para dedalcançar o pote (que lonjava)&#8230; e sucessou! Felizava alegravelmente, comia e recomia e trecomia, o comilãozinho!</p>
<p>Aí alteviu o cão, que latidoía e tristava no chão: o menino ficou presado no balconíssimo!</p>
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			<media:title type="html">Madrouge</media:title>
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